Caçadores de rios perdidos tentam salvar as nascentes de São Paulo

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Sentada no banco de uma praça na Pompeia, zona oeste de São Paulo, dona Virgínia Telles recorda um desses causos que constituem a verdadeira história das ruas. Diz ela que anos atrás era o céu pretejar, carregado pelas nuvens de chuva, que a vizinha Ornélia saia para a rua, meio desvairada, e começava a catar tudo que encontrasse no chão. O medo da moça era que o lixo entupisse os bueiros e a água tomasse todas as casas do entorno – do mesmo jeito que aconteceu quando, ainda nova, ela perdeu a tia em uma enchente. Há anos, dona Telles não sabe do paradeiro de Ornélia, mas com a lembrança quer mostrar que, naquele pedaço, chuva sempre foi sinônimo de alagamento. Acontece que sob a praça, batizada com o sugestivo nome de Rio dos Campos, passa veloz o córrego Água Preta.

Em uma cidade com, estima-se, mais de 300 cursos d’água – a maior parte canalizado de forma subterrânea na área central – os alagamentos do Água Preta não são exceção. Assim como nesse caso, muitas vezes as canalizações não respeitaram as várzeas – áreas de alagamento naturais dos rios – e, por isso, as enchentes foram e ainda são certas. O caso do córrego, contudo, é exemplar de dois movimentos da cidade: um histórico e outro contemporâneo. O primeiro, reflete o modo como se deu a urbanização da capital paulista, em que os rios sempre foram vistos como entraves para a modernização. O segundo, retrata o trabalho de pessoas que, de forma algo quixotesca, têm perseguido a tarefa de mapear rios, preservar nascentes e intervir em espaços públicos para que a água, sempre oculta debaixo das ruas, seja, enfim, percebida.

Hoje, a Praça da Nascente (antiga Homero Silva), berço do Água Preta, é um dos únicos locais em que é possível ter contato direto com as águas do córrego. Nem sempre foi assim. Só em 2013, depois de um longo período de abandono, um grupo de conhecidos, agora representado pelo coletivo Ocupe & Abrace, reuniu-se para dar vida nova à praça e resgatar as nascentes formadoras do córrego. Brotando abundante em diferentes locais do terreno, através de um sistema de escoação com telhas e canos, a água foi direcionada para uma pequena lagoa que agora abriga peixes, girinos e plantas aquáticas. A água não é própria para consumo, mas foi responsável por criar um clima mais ameno e refrescante na praça, além de acabar virando um ambiente simbólico do bairro e da presença do córrego.

Em uma manhã quente de primavera, por exemplo, é possível topar com um grupo de quatro colegas, que, de calça e camisa social, vão lá relaxar um pouco antes do expediente. Um gari da Prefeitura esfarelando pedaços de pão para alimentar os peixes. Uma mãe passeando com o carrinho de bebê. Recentemente, contudo, uma disputa entre o Ocupe & Abrace e a Exto Incorporação e Construção se mostrou bem reveladora dessa nova forma de se olhar para os cursos d’água da cidade e a forma histórica com que os bairros foram erigidos. Há coisa de meses, a incorporadora demoliu sete casas em um terreno contíguo à Praça. A ideia, de acordo com um requerimento de uso e ocupação do solo protocolado junto à Prefeitura em maio deste ano, é construir no lote um prédio de 22 andares.

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“Nossa preocupação é que a construção da torre rebaixe o lençol freático da área e acabe secando as nascentes da praça, afetando, inclusive o percurso do Água Preta”, comenta Roberta Soares, ativista do Ocupe & Abrace. O coletivo tem um laudo do Instituto Geográfico do Estado de São Paulo que comprova a existência de 13 nascentes na área, duas delas, inclusive, dentro do terreno da construtora. A Secretaria Municipal de Licenciamento da Prefeitura diz que a licença para que as obras sejam iniciadas ainda não foi dada e que “quando constatada a existência de nascentes, o proprietário deve informar a Prefeitura e tomar medidas de proteção”, sem especificar, contudo, quais medidas são essas. “Impedir a construção do prédio seria bom, mas o melhor mesmo seria expandir a praça para a área do terreno. Isso abriria um precedente muito bom para a cidade”, diz Soares.

Em nota, a Exto Incorporação diz que nenhuma construção começará sem o licenciamento e que a compra dos terrenos é feita seguindo aspectos jurídicos e legais. Além disso, afirma que o projeto prevê o estacionamento no nível da rua, sem que haja necessidade de subsolo. Ressalta também que no mesmo lugar em que o Ocupe & Abrace aponta a existência de nascentes, já havia sobrados de moradia. Os ativistas, por sua vez, defendem que apenas os alicerces dos prédios, maiores do que os de uma casa, já seriam prejudiciais o suficiente para as nascentes da praça. Uma coisa é fato: em uma cidade com tanta água, a expansão da mancha urbana teria sido inviável. Mas o momento, segundo o geógrafo Luiz de Campos Jr., da iniciativa Rios e Ruas, que faz um mapeamento dos rios da capital paulista, é realmente de mudanças de paradigmas.

Não à toa, não é a primeira vez que a existência de nascentes em terrenos mobiliza a população contra construções. O Parque dos Búfalos, nas margens da represa Billings, zona sul da cidade, é palco de uma disputa entre ambientalistas e a Prefeitura que tem um plano habitacional do Minha Casa Minha Vida para a área. Atualmente, a construção está em andamento, mas ainda existem ações judiciais que tentam impedir o prosseguimento das obras. “São Paulo está dentro de uma bacia sedimentar, no alto do planalto atlântico, muito próximo do litoral. Aqui há muita água, mas a urbanização da cidade escondeu os rios, a coisa começa a mudar agora”, diz Campos Jr.

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Mapa hidrográfico de São Paulo elaborado pela Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) para a Prefeitura. Segundo ele, há 287 rios na cidade. Ativistas dizem que o número é subestimado.

Nas universidades, grupos de estudo também se dedicam à questão dos rios há muitos anos. O Grupo Metrópole Fluvial, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP, é um dos principais exemplos. Um dos projetos do grupo, que circula nos gabinetes do Governo do Estado de São Paulo, é a criação de um anel hidroviário de transporte de carga e passageiros que abriria canais e ligaria os dois principais rios da cidade – Tietê e Pinheiros – a algumas das represas. Historicamente, a visão entre aproveitar os rios na urbanização, ou canaliza-los, é representada pelo embate entre Prestes Maia, prefeito que construiu as principais avenidas da cidade, e Saturnino de Brito, urbanista e sanitarista, responsável, por exemplo, por projetos como o dos canais fluviais da cidade de Santos.

Uma janela para o Água Preta

Seguindo o percurso do Água Preta, que serpenteia o bairro da Pompeia até desaguar no Rio Tietê – numa linha reta de cerca de quatro quilômetros – é possível sentir a presença do córrego, seja no som que emana das galerias pluviais, seja através de intervenções urbanas. A própria praça Rio dos Campos, onde Ornélia, a vizinha de dona Telles, atarantava-se para tentar impedir alagamentos em dias de chuva, é o local de partida do Bloco do Água Preta, que sai todo carnaval em memória do córrego. “Os mais antigos diziam que no local também havia uma pequena lagoa, onde a vizinhança pescava”, comenta Adriano Sampaio, verdadeiro caçador de rios, do Existe Água em SP. Dona Telles, há 50 anos na região, não chegou no bairro há tempo de ver a pescaria, mas garante que a informação é verídica.

Pelas esquinas do bairro também é possível encontrar um mesmo estêncil com os dizeres: “Aqui passa o Água Preta”. “Imagina se em ao menos um desses lugares, houvesse um parque linear com o córrego exposto? Isso mudaria a percepção das pessoas da cidade”, comenta Sampaio. Na travessa Roque Adóglio, o artista Flavio Barollo, do grupo (se)cura humana, construiu um poço na saída de um ralo do córrego canalizado. Do parapeito, é possível ver o córrego veloz passando canalizado e, encimando o poço, no lugar em que ficaria pendurado um balde, ele colocou uma privada com plantas.

Água e urbanização são uma preocupação constante nos trabalhos de Barollo. Ainda durante uma das fases mais críticas da crise hídrica em São Paulo, que secou reservatórios e ameaçou o abastecimento de água da cidade, o artista entrou no rio Tietê usando apenas um traje de proteção. “No espelho achado no fundo das águas, refletimos a nós mesmos: o grande fracasso da sociedade, a falência do homem e o gargalo do sistema capitalista”, escreveu Barollo em um relato da performance ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2015. A ideia do poço, assim como a do mergulho no Tietê, é também provocar uma reflexão sobre o processo de urbanização da cidade. O poço inspirou outros artistas e interessados que montaram uma biblioteca circulante na travessa, além de outras instalações artísticas.

“Garanto que não falta água em São Paulo, é só aprendermos a olhá-la de modo diverso”, comenta Sampaio. Perto do poço, chega-se à praça das cabritas, outro ponto de nascente do Água Preta, onde um coletivo de nome sugestivo, Hezbolago, construiu duas pequenas lagoas semelhantes à da Praça da Nascente. “Quando as pessoas veem essa água já logo vão falando que é criadouro de dengue, mas não é verdade, a água está em constante circulação e, além disso, os peixes guarú comem os possíveis ovos dos Aedes Aegypit”, defende Sampaio. Para ele, existe um vício de tratar determinados problemas sempre com as mesmas ferramentas, quando há outras soluções possíveis. Algo que, de certa forma, resume a situação dos rios paulistanos.

 

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