Marcelo Knobel / Teresa Atvars, Carta Compromisso – Unicamp Sustentável

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Crisálida convidou os candidatos à Reitoria a responder à seguinte questão:

Prezado(a) candidato(a) à Reitoria da Unicamp,
Considerando que um dos mais consolidados consensos científicos da atualidade é a percepção do caráter preponderantemente antropogênico das mudanças climáticas e dos múltiplos processos que impactam e degradam a biosfera; 
considerando também a necessidade de mitigar quanto possível tais impactos e de melhor compreender sua extensão e desdobramentos, o portal Crisálida teria grande prazer em publicar um texto programático seu a respeito da seguinte questão:
Como entende o(a) colega, se eleito(a) reitor(a), promover um mais efetivo engajamento da Universidade, seja no âmbito da educação ambiental intra- e extramuros, seja no esforço de apontar soluções teóricas e práticas para os graves problemas acima evocados? Em particular, o que propõe o(a) colega em termos de ações diretas em prol da sustentabilidade do Campus?

Em resposta a esse convite, os Professores Marcelo Knobel e Teresa Atvars encaminharam-nos a seguinte Carta-Compromisso, pela qual agradecemos e que temos o grande prazer de publicar abaixo, renovando nosso convite aos outros candidatos para que se posicionem a respeito.

Carta Compromisso – Unicamp Sustentável

Nossa chapa Marcelo (Reitor) / Teresa (Vice), cujo lema é Universidade Pública – Compromisso com a Sociedade, assume compromisso com uma Unicamp Sustentável e trabalhará incansavelmente para sua implantação. Entendemos a complexidade do conceito de sustentabilidade, que abarca as questões socioambientais, políticas e tecnológicas, explicitada no documento de criação do grupo Crisálida (Crises SócioAmbientais. Labor Interdisciplinar Debate & Atualização) da Unicamp  (Ver <http://crisalida.eco.br/sobre-o-crisalida>) .

Apesar da complexidade do tema, há um relativo consenso sobre o peso inédito da humanidade nas transformações ambientais em curso. Assim, a preocupação com a problemática ambiental insere-se dentro das estratégias corporativas do Planes Unicamp 2016-2020 que estabeleceu a sustentabilidade e a qualidade de vida como suas estratégias corporativas, e será um dos pontos principais de nossa proposta programática, em consonância com os pressupostos contidos na Carta da Terra (Ver <http://www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/carta-da-terra>).  

Nesse sentido, somos ambiciosos, pois acreditamos que mesmo saindo do ponto que estamos (que está bastante aquém do desejado), a Unicamp poderá, ao final dos quatro anos de gestão, figurar entre as 50 melhores universidades internacionais no ranking das Green Universities (Ver Green metric ranking em <http://grenmetric.ui.ac.id/>).

Este ranking dispõe de diversos indicadores que formam um excelente mapa de iniciativas para a implantação da “Unicamp Sustentável” e permitem avaliar o avanço da universidade na implantação dos seus planos de ação. Naturalmente, o resultado no ranking não é o objetivo final, mas será apenas uma consequência de uma priorização da defesa de políticas e pesquisas em favor do ambiente e do controle do aquecimento global. Para isso, faremos uma organização da agenda da universidade para alinhar todas as ações correlatas ao assunto (educacionais, curriculares, de pesquisa, de infraestrutura física, de comunicação e de informação), de modo sinérgico, sem duplicação de esforços e de ações redundantes ou contraproducentes, com economia de recursos e maximizando os resultados. Temos plena consciência que para resolver nosso enorme passivo ambiental deveremos implantar diversas ações em diferentes dimensões. Certamente não será um percurso fácil, nem de curto prazo, mas é necessário atuar mais incisivamente imediatamente. 

Em primeiro lugar, as atividades-fim da Universidade, a Pesquisa, o Ensino, a Extensão e a Assistência devem envolver, em suas respectivas áreas de atuação, abordagens tematizando o assunto. Encontrar as melhores formas de divulgação destes trabalhos de modo que eles possam ser apropriados pela sociedade é uma das tarefas importantes a ser discutida com os pesquisadores da área. Para isso, deveremos apoiar pesquisas na área, com perspectiva crítica, e eventos internacionais com renomados especialistas, visando, inclusive, discutir soluções para nossos campi.

Propomos também lançar editais internos para apresentação de propostas de soluções viáveis e exequíveis para alguns dos nossos problemas mais prementes. Os diversos grupos de pesquisa que trabalham de forma independente nas várias dimensões do assunto poderão desenvolver propostas e experimentá-las na prática, como exemplos a serem divulgados para a comunidade (interna e externa). 

Demonstrada sua efetividade, a sociedade poderá se apoderar do conhecimento gerado e implantar a respectiva ação. Neste mesmo contexto, transferir as experiências bem-sucedidas destes grupos para a sociedade é uma tarefa que deverá envolver diversos órgãos da Universidade, em particular a INOVA, com a eventual criação de uma área específica para tratar destes assuntos, começando com o mapeamento das experiências existentes.

Entretanto, a administração não pode se limitar a projetos de natureza mais acadêmica. Ela deve atuar decisivamente para que tecnologias existentes sejam colocadas em prática, na busca de uma substancial melhora tanto na qualidade de vida quanto na sustentabilidade, em todas as suas dimensões.

A Universidade deve inicialmente diagnosticar o problema a ser resolvido, identificar experiências existentes na Unicamp ou fora dela, e subsequentemente elaborar um plano de trabalho e de financiamento para implantação, criação de equipe centralizada para executar, acompanhar, avaliar, realizar os aprimoramentos, e fazer o ciclo proativo se realimentar e continuar atuante. Esta fase executiva exige equipe técnica qualificada, capacitada para implantar processos de sustentabilidade de grande extensão. Para isso, a Prefeitura da Unicamp deve ter a estrutura adequada para implantar cada projeto em toda sua complexidade, inclusive fortalecendo a área de Meio Ambiente com técnicos especializados no assunto.

Dentre as ações que queremos implantar, estão as seguintes:

– Definir um plano plurianual de sustentabilidade a ser apreciado pela Comissão de Planejamento Estratégico (Copei) como parte do Planes Unicamp 2016-2020, com alocação de recursos para melhorias nos indicadores de sustentabilidade; estabelecer as ações prioritárias relacionadas às estratégias corporativas: Sustentabilidade e Qualidade de Vida;

– Integrar em um único órgão a definição da política e dos planos de ação e sustentabilidade, permitindo que se efetive o caminho da política a prática, respondendo à Copei sobre o andamento dos projetos vinculados às estratégias corporativas Sustentabilidade e Qualidade de Vida;

– Valorizar todas as iniciativas existentes, realizando, logo no início da gestão, um diagnóstico detalhado de cada uma delas, visando identificar os problemas existentes e suas possíveis soluções, dentre eles os programas de reciclagem de lixo, reciclagem de lixo tóxico, racionalização do trânsito nos campi com incremento do transporte coletivo e redução da circulação de carros nos campi, melhorias nas vias de pedestres e sistema de ciclovias;

– Atuar junto as companhias de transporte urbano para melhorar substancialmente a eficiência do transporte público entre Campinas-Unicamp; Unicamp-Viracopos; Unicamp-rodoviária; e intercampi, visando reduzir, com qualidade, o trânsito interno no Campus de Barão Geraldo;

– Fortalecer o plano diretor de crescimento com padrões de construção ambientalmente sustentáveis, com manuais descritivos objetivos e norteadores, dentro de uma proposta de adensamento das edificações criando espaços de estar externos conectados a caminhos para pedestres;

– Garantir que os espaços dedicados a salas de aula, laboratórios e salas de trabalho dos funcionários, pesquisadores e docentes tenham um padrão mínimo de conforto ambiental e sejam periodicamente avaliados nos requisitos de acessibilidade e segurança no trabalho. Suprir estes requisitos deve ser uma prioridade.

– Perseguir uma meta de acidentes zero nos ambientes de trabalho, de modo que o ambiente satisfaça as condições estabelecidas pela legislação.

– Participar de redes internacionais de universidades divulgando as boas práticas implantadas na Unicamp e de rankings internacionais que permitam avaliar o progresso em direção à Unicamp sustentável;

– Atuar decisivamente nas reestruturações curriculares, sugerindo que os cursos adotem uma agenda de sustentabilidade;

– Criar mecanismos em que as ações educacionais proativas na área de sustentabilidade ou de qualidade de vida realizadas por grupos organizados e devidamente supervisionadas, possam ser incorporadas nos currículos dos estudantes;

– Mapear, preservar e recuperar as matas nativas nos campi, obedecendo a critérios técnicos e aumento da cobertura vegetal; 

– Mapear as populações animais e formas de manejo sustentável destas; 

– Apoiar estudos sobre a fauna que habita ou usa o campus; 

– Estabelecer um plano ambicioso de gestão da água visando a redução do consumo, educação para o consumo consciente, reciclagem, coleta de água de chuva, tratamento da água consumida e reuso; preservação dos mananciais;

– Estabelecer um plano de eficiência energética, visando a redução do consumo energético e das despesas com energia; estabelecer normas para aquisição de equipamentos; implantação de cogeração ou de outras fontes alternativas, procurando utilizar recursos de fundos setoriais;

– Proceder a contratações de equipes qualificadas e especializadas em gestão ambiental para implantarem o plano de trabalho da Unicamp sustentável, com especialistas em elaboração e implantação/gestão de projetos, conhecimento de fundos setoriais; mensuração de efeitos de emissão de gás estufa;

– Implantar um sistema centralizado de gerenciamento de despesas visando acompanhar a evolução do consumo, a efetividade das ações implantadas e a divulgação dos resultados;

– Dar visibilidade e transparência às ações, através de um espaço para divulgação das ações e dos relatórios periódicos de acompanhamento das estratégias;

– Recomendar a manifestação expressa dos comitês de ética em pesquisa sobre a aderência de projetos de pesquisa aos requisitos de sustentabilidade;

– Apoiar pesquisas na área através do FAEPEX; apoiar eventos nacionais e internacionais com especialistas da área visando discutir soluções para Sustentabilidade, em temas atuais e práticos;

– Propor uma coleção sobre o tema ao Conselho Editorial da Editora da Unicamp e buscar financiamento para apoiá-lo; ampliar mecanismos de divulgação de projetos e resultados.

Marcelo Knobel e Teresa Atvars / Janeiro de 2017

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