Sobre o Crisálida

Os seres humanos e o mundo natural estão em rota de colisão. As atividades humanas infligem danos, frequentemente irreversíveis, ao meio ambiente e a recursos naturais críticos. Se não forem revistas, muitas das nossas práticas atuais colocam em sério risco o futuro que desejamos para a sociedade humana e para os reinos das plantas e dos animais, e podem alterar de tal modo a biosfera que esta se tornará incapaz de sustentar a vida nos moldes em que a conhecemos.

“Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade”, proposta pela Union of Concerned Scientists do MIT por ocasião da ECO-92, um documento assinado por 1700 cientistas, incluindo a maioria dos laureados com o Prêmio Nobel em diversos campos das ciências[1]

Índice

I – Premissa
II – Criação e objetivos de um portal da Unicamp
III – Estrutura do portal da Unicamp
IV –Os 17 Tópicos de Crisálida (grade temática)
V – Modus operandi

 

I – Premissa

1. A transversalidade do Antropoceno

O saber contemporâneo sofre hoje o impacto de uma situação completamente nova: o Antropoceno, o período da escala de tempo geológica em que ingressamos. O termo não foi ainda formalmente admitido pela Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS), mas é largamente difundido desde 2000, quando foi proposto por Paul Crutzen e Eugene Stoermer, e vem sendo aprofundado pelos cientistas do Anthropocene Working Group, coordenada por Jan Zalaziewicz[2]. O Antropoceno é o período geológico caracterizado pelo fato de que a atividade antrópica tornou-se uma força geofísica mais relevante para os equilíbrios do sistema Terra que os impactos gerados por fatores não humanos[3].

Por sua própria definição, o Antropoceno abole os limites, antes claramente demarcados, entre o objeto das ciências da natureza e o objeto das Humanidades ou ciências do homem. Pela primeira vez na história humana e na história do planeta, as condicionantes decisivas do tempo geológico e do tempo histórico são fundamentalmente as mesmas. É doravante arbitrário, portanto, separar a esfera da natureza da esfera do homem e de sua história. Do comportamento humano depende, hoje, em última instância, o destino da biosfera e, portanto, em ricochete, o destino do próprio homem. Dessa nova e mais íntima interligação entre classes de fenômenos – isto é, dos objetos das diversas disciplinas –, dessa convergência das variáveis outrora autônomas numa nova e imbricada estrutura antropocênica do mundo decorre logicamente a necessidade de uma redefinição da armadura do saber. O Antropoceno recoloca a questão da unidade do mundo e da unidade homem/mundo não mais a partir de uma presunção metafísica, mas a partir de um novo princípio concreto, mensurável e eficiente de causação.

         2. A religação dos saberes

Essa nova situação epistemológica deve provocar na Universidade um sobressalto e mesmo um movimento sísmico. O sismógrafo intelectual acusa algo desse movimento, mas não talvez na rapidez e na amplitude requeridas.

O comportamento dos fenômenos da vida é hoje ininteligível sem que se leve em conta a intervenção de variáveis humanas numa escala jamais imaginada. E, inversamente, a atividade social é, e será cada vez mais limitada, no limite acuada, pela resposta de uma biosfera diminuída e desequilibrada por essa atividade. Por conseguinte, as ciências do homem devem se apressar em rever seus paradigmas de origem, em aprender e incorporar em suas análises sobre a sociedade elementos das ciências da natureza. E, inversamente, estas últimas devem se familiarizar com o latim das ciências do homem, sem o qual suas análises e suas projeções do comportamento futuro das curvas nos desequilíbrios da biosfera e das estruturas geofísicas do planeta não serão confirmadas pela realidade. E isto pelo simples fato de não levarem em conta as probabilidades de comportamento da variável dominante: o comportamento das sociedades humanas determinado por seus inerentes conflitos.

O imenso salto de escala na interação homem-natureza, ocorrido ao longo da segunda metade do século XX, tem implicações decisivas para todas as áreas do saber e não menos para a articulação interna do saber. Essa unidade não é mais agora apenas um axioma circunscrito à esfera da biologia (o nível da espécie) ou apenas um tema de reflexão histórica, filosófica, antropológica e estética desvinculada da pertença do homem à biosfera. A emergência de um novo tipo de continuidade entre as categorias homem e natureza tenderá a constituir doravante o problema filosófico e o objeto central do pensamento crítico e científico.

À Universidade cabe a responsabilidade imensa e inalienável de pesquisar, refletir, debater e propor soluções às crises socioambientais que se avolumam no Antropoceno.

Assumir essa responsabilidade supõe, contudo, a satisfação de uma premissa fundamental: a “religação dos saberes”[4] em torno das crises socioambientais, perspectiva central que funda (ou refunda) um campo cooperativo e integrador de todas as disciplinas. Sem um esforço de religação dos saberes, não se produzirá a sinergia intelectual imprescindível para a formulação de respostas, dentro e fora da Universidade, à altura dos desafios socioambientais que nos confrontam.

Mesmo que discussões concertadas entre áreas científicas e tecnológicas diversas, como ciências da saúde, ciências da natureza e exatas, engenharias, humanidades e artes, possam, num primeiro momento, carecer de uma linguagem comum ou possam mesmo produzir, explicitar ou até ampliar dissonâncias, essas discussões devem ser encetadas, pois são imprescindíveis do ponto de vista teórico e prático. Em conclusão, e como bem afirma Michel Serres, hoje “as ciências humanas e sociais tornaram-se uma espécie de subseção das ciências da Vida e da Terra. E a recíproca é verdadeira”[5].

 II – Criação e objetivos de um portal da Unicamp

Baseando-se nesta premissa e neste documento, bastante difundido na comunidade acadêmica, a reitoria da Unicamp nomeou um Grupo de Trabalho composto de 16 membros, entre docentes e pesquisadores da Unicamp para a criação, normatização e desenvolvimento de um portal multimídia e interdisciplinar voltado para a divulgação e o aprofundamento do conhecimento científico, do debate, das práticas e das políticas públicas ligadas às questões socioambientais.

Aberto à participação de toda a sociedade e ambicionando ampliar o diálogo entre esta e a Universidade, esse portal convoca em particular os professores, pesquisadores e estudantes de nossa e de outras Universidades a lhe dar uma especial contribuição. Ele pode se inspirar, guardadas nossas especificidades, num modelo consagrado e de grande valia, o portal da Universidade de Yale, intitulado Yale environment360 (http://e360.yale.edu/).

Objetivos

A criação e desenvolvimento de um portal da Unicamp devotado às questões socioambientais tem por objetivo elaborar um mosaico de informações – constituído por textos, gráficos, imagens, podcasts, vídeos e filmes – susceptíveis de sugerir um panorama do estado atual e da evolução dos saberes sobre as crises sócio-ambientais. Esse objetivo geral articula-se em três objetivos particulares:

  1. oferecer uma plataforma de agregação de informações e de divulgação científica sobre o conjunto das questões ambientais, em âmbito nacional e internacional, que mobiliza a sociedade e em particular a comunidade acadêmica. Há diversas agências de notícias socioambientais, algumas excelentes e já consolidadas, dentro e fora do Brasil – Manchetes Socioambientais (ISA), Envolverde, O ((eco)), InfoAmazônia, Observatório do Clima, Daily Climate, Mongabay etc. – com as quais o portal da Unicamp interagirá. Faz falta no momento uma caixa de ressonância universitária dessas agências de notícias socioambientais, função que esse portal pode e deve cumprir, além de produzir suas próprias notícias. Essa dupla atividade de divulgação e produção de informação pode ocorrer tanto em português quanto em outras línguas (inglês, espanhol, francês e italiano);
  1. promover um fórum de discussões aprofundadas acerca das questões e das crises socioambientais. Esse fórum deve contar com contribuições não apenas de professores e pesquisadores da Unicamp, mas de trabalhos emanando de outros centros nacionais e internacionais e outros horizontes de saber.
  1. elaborar a pauta e a ementa de encontros regulares da Unicamp, virtuais e/ou presenciais, centrados nos diversos temas das crises socioambientais.

III – Estrutura do portal da Unicamp

A estrutura informacional do portal dispõe-se nos seguintes campos que o estruturam visualmente:

  1. Notícias Socioambientais: informações colhidas na imprensa, em outros “sites” e nos serviços jornalísticos da Unicamp, além de informações fornecidas pelos próprios Institutos, Faculdades e núcleos de pesquisa da Universidade, seguidas (eventualmente) de breves comentários;
  2. Artigos de fundo, análises, entrevistas, papers etc
  3. Outras mídias (filmes, televisão, podcasts, com eventual ênfase na transmissão em tempo real (ou na forma de arquivos) de encontros sobre a problemática das crises socioambientais.
  4. Atalhos remetendo a “sites” já existentes em rede, no intuito de constituir uma biblioteca virtual multimídia de informação e estudos socioambientais.
  5. Interação entre os usuários (produtores de conteúdos e leitores)

IV – Os 17 Tópicos de Crisálida (grade temática)

1. Biodiversidade
(Diminuição, degradação e restauração das florestas, defaunação e empobrecimento da biodiversidade, tráfico de espécies silvestres, sobrepesca, acidificação e eutrofização do meio aquático)

 2. Água, solos e insegurança alimentar
(Quantidade e qualidade do abastecimento hídrico, uso doméstico, agropecuário e industrial dos recursos hídricos, erosão e desertificação dos solos, produtividade agrícola)

3. Saneamento ambiental
(resíduos, efluentes, poluição e intoxicação industriais)

4. Energia
(combustíveis fósseis, biomassa, hidrelétricas e energias de menor impacto)

5. Mudanças climáticas
(emissões de gases de efeito estufa, aquecimento global na superfície da terra e nos oceanos, degelo, liberação de metano, elevação do nível do mar, eventos meteorológicos extremos, furacões, tornados etc)

6. Demografia
(Transição e pressão demográfica, fecundidade, urbanização, habitação, mobilidade urbana e segurança ambiental)

7. Globalização
(Economia, padrões de consumo e (in)sustentabilidade ambiental).

8. Populações indígenas
(As crises socioambientais vistas pelas populações indígenas e pelas comunidades locais)

9. A técnica e as crises ambientais
(A tecnologia como fator de intensificação ou de mitigação das crises ambientais)

10. Diplomacia e governança global
(A implementação do Acordo de Paris e de outros acordos internacionais a respeito das crises ambientais)

11. O ativismo socioambiental
(A pressão da sociedade civil organizada sobre o Estado e sobre as corporações, e a democratização do acesso à informação ecológica, à alimentação e a bens de menor impacto ambiental. Ação e imaginação políticas em prol da contenção/superação das crises ambientais)

12. Educação e conscientização ecológicas
Colapso socioambiental. Perspectivas históricas
(A historiografia sobre os colapsos socioambientais anteriores e a literatura científica ou de divulgação científica sobre as projeções futuras)

13. Colapso socioambiental. Perspectivas históricas

14. Cidades

15. Arte e filosofia
(A criação e a reflexão filosófica e artística sobre as crises socioambientais)

16. A biosfera como sujeito de direito
(Bem-estar animal e a discussão ética e jurídica sobre os direitos animais)

17. A religação dos saberes
(Perspectivas transversais e interdisciplinariedade no Antropoceno)

V – Modus operandi

 Crisálida deve operar a partir da mediação de uma Comissão de professores de diversos Institutos, encarregada de coordenar e avaliar a inserção dos conteúdos. Além disso, uma pequena equipe de estudantes dotados de bolsas de auxílio pode se encarregar da operacionalização do portal.

Notas

[1] Veja-se <http://www.ucsusa.org/about/1992-world-scientists.html>.

[2] Cf. A Stratigraphical Basis for the Anthropocene, coordenado por C.N. Waters, J. A. Zalasiewicz, M. Williams, M.A. Ellis e A. M. Snelling. Londres, Geological Society, 2014. Veja-se anteriormente Will Steffen, Jacques Grinevald, Paul Crutzen, John McNeill, “The Anthropocene: conceptual and historical perspectives”. Philosophical Transactions of the Royal Society, 369, 2011, pp. 842-867.

[3] Cf. Paul Crutzen, “The Anthropocene. Geology of mankind”. Nature, 415, 6867, 2002, p. 23; Idem, “The Anthropocene”, in E. Ehlers, T. Krafft (orgs.), Earth System Science in the Anthropocene: Emerging Issues and Problems. New York: Springer, 2006. O termo surge pela primeira vez com Andrew Revkin, Global Warming: Understanding the Forecast. American Museum of Natural History, Environmental Defense Fund. New York: Abbeville Press, 1992. Desde 2008, o conceito era já amplamente aceito pela comunidade científica. Cf. J. Zalasiewicz, M. Williams et al., “Are we now living in the Anthropocene?”. GSA Today, 18, 2, 2008, pp. 4-8: “The term Anthropocene, proposed and increasingly employed to denote the current interval of anthropogenic global environmental change, may be discussed on stratigraphic grounds. A case can be made for its consideration as a formal epoch in that, since the start of the Industrial Revolution, Earth has endured changes sufficient to leave a global stratigraphic signature distinct from that of the Holocene or of previous Pleistocene interglacial phases, encompassing novel biotic, sedimentary, and geochemical change”. Veja-se:

http://www.geosociety.org/gsatoday/archive/18/2/pdf/i1052-5173-18-2-4.pdf.

[4] Cf. Edgar Morin, Relier les Connaissances. Paris, Éditions du Seuil, 1999. Tradução portuguesa, A religação dos saberes. O desafio do século XXI. São Paulo, Bertrand Brasil, 2013.

[5] Cf. Michel Serres, Temps des crises. Paris, Le Pommier, 2009, p. 98.