Trump ressuscita dois polêmicos oleodutos barrados por Obama

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A rede de oleodutos chamada Keystone, de propriedade da Transcanada, transporta betume de Alberta no Canadá a Illinois e ao Texas nos EUA. Como mostra a figura abaixo, a maior parte dela já foi construída entre 2010 e 2015 (Fases 1, 2, 3a e 3b)

Keystone

Imagem: Transcanada, Wikipedia

 Como é bem sabido, a construção da fase 4, com seus quase 1.900 km (1,179 milhas), foi objeto de uma luta social importante, envolvendo os Sioux e grande número de ONGs, luta esta que suscitou uma repressão brutal, mas acabou levando Obama a suspender sua construção. Para entender o que está em jogo aqui, além dos direitos indígenas e a questão das emissões de GEE, é preciso lembrar que os oleodutos têm maior risco de vazamentos que outras formas de transporte de petróleo, e tanto mais em se tratando de petróleo não convencional, extraído de areias betuminosas.

Na América do Norte, dado que o petróleo não convencional (extraído de areias betuminosas e de rochas de xisto por hidrofracionamento) é transportado sobretudo por trens e oleodutos, verificou-se um aumento explosivo dos acidentes envolvendo essas duas formas de transporte. Nos EUA, mais petróleo cru foi derramado em acidentes ferroviários em 2013 que na soma dos 38 anos entre 1975 e 2012: 4,3 milhões de litros em 2013 contra 3 milhões nos quatro decênios anteriores (veja James Gerken, “Oil Trains Spilled More Crude Last Year than in the Previous 38 Years Combined”. The Huffington Post, 22/I/2014).

Entre 2010 e 2014, “trens-bomba” descarrilaram ou explodiram em Illinois, Maryland, Montana, Pennsylvania, Texas, Washington, Virginia, West Virginia, North Dakota e Alabama, para nomear apenas os maiores acidentes ocorridos nos EUA entre 2010 e 2014 (veja Environmental Action <https://mail.google.com/mail/u/0/?tab=wm#inbox/14e2eb6573669913>. Mais informação no site The Right-to-Know-Network (RTKNET) online).

Os derramamentos de petróleo nos oleodutos são, entretanto, muito maiores e mais perigosos. Segundo a Association of American Railroads, entre 2002 e 2012, acidentes de trens nos EUA derramaram 2.300 barris, enquanto os vazamentos em oleodutos atingiram no mesmo período a marca dos 474 mil barris. (veja Moving Crude by Rail, AAR, dezembro de 2013, em rede).

Como afirma o site da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Agency):

 “Para ser transportado, o betume é diluído com vários componentes de petróleo em modos que podem ser considerados segredos comerciais e não são divulgados, com implicações potenciais para a saúde humana e para os impactos ambientais” (To be transported, bitumen is diluted with a variety of petroleum compounds, and some of this information may be considered trade secrets and is not generally shared, with potential implications for human health and environmental impacts).

Donald Trump anunciou que, se eleito, permitiria a construção da Fase 4, ignorando os riscos sublinhados pela NOAA: “If I am elected President I will immediately approve the Keystone XL pipeline. No impact on environment & lots of jobs for U.S.”).

Dito e feito, como mostra a reportagem abaixo.

Luiz Marques

 

Donald Trump assinou nesta terça-feira duas ordens executivas para ressuscitar dois projetos de construção de dois polêmicos oleodutos — o Keystone XL e o Dakota Access —, que a Administração de Obama freou por considerar que haveria danos ambientais. A medida reflete a guinada que o novo Governo norte-americano dá também neste campo, embora o presidente avise que “renegociará” as condições da obra. Um pouco antes, em uma reunião com executivos do setor automotivo, ele disse que “o ambientalismo está fora de controle”.

O giro protecionista de sua política econômica também impregna o assunto dos oleodutos da discórdia, já que em outro decreto o presidente também propõe que estes novos sistemas de canos devem ser produzido nos Estados Unidos, com material norte-americano. “Compre produtos americano, contrate trabalhadores americanos”, disse em seu discurso inaugural, e nessa mesma linha se expressou nesta terça-feira enquanto assinava os decretos.

“Vamos a renegociar algumas condições”, disse o republicano, “e se gostarem, veremos se podemos construir esse oleoduto, [terá] muitos empregos, 28.000 estupendos empregos de construção”. “Vamos devolver ao trabalho um montão de trabalhadores do aço”. “Vamos construir nossos próprios canos, como nos velhos tempos”, enfatizou o empresário nova-iorquino, que converteu a volta à América em mais um dos eixos de sua política.

O bloqueio do macroprojeto Keystone — uma tubulação que transportaria petróleo do Canadá até o Golfo do México — foi uma vitória do movimento ambientalista depois de anos de batalha contra o projeto, por ele atravessar território protegido. A empresa TransCanada o apresentou em 2008 e foi levado em frente pelo Congresso em 2014, mas Obama acabou vetando-o.

O Dakota Access, que mobilizou a tribo sioux de Dakota do Norte sob o lema #StandingRock, foi interrompido por decisão de Obama em setembro, à espera de ver como o caso avançaria nos tribunais.

Os detratores do Keystone — que implica a ampliação da tubulação em 1.900 quilômetros, até alcançar mais de 2.700 — argumentam que o petróleo que transporta é muito poluente e, além disso, a obra terá de atravessar áreas protegidas e nada faz senão aumentar a dependência das energias fósseis. Seus defensores apontam as dezenas de milhares de empregos que serão criados e o barateamento da energia para as empresas. O trecho paralisado uniria Alberta (Canadá) com Nebraska até ligar com outro trecho já existente que chegaria ao golfo de México e permitiria transportar 830.000 barris diários.

Giro na política ambiental

Trump cumpre assim, nos primeiros dias de sua presidência, outra de suas promessas eleitorais, que era impulsionar este tipo de obra. O republicano se alinha neste caso com a filosofia de seu partido, que era favorável ao oleoduto, embora se afaste ao colocar como condição a produção doméstica do projeto, em linha com esse giro protecionista que rompe o credo conservador e que no dia anterior se fez palpável com a saída do tratado comercial transpacífico (TPP).

Em assuntos ambientais, o novo presidente norte-americano deixou muito claro desde a campanha que ia aplicar uma política muito diferente da de seu predecessor, que em setembro ratificou o acordo de Paris contra a mudança climática. Trump, pelo contrário, não só se comprometeu a dar maiores facilidades à indústria do petróleo e do carvão, como chegou a taxar o aquecimento global de “hoax” fabricado pela China para impor restrições regulatórias à competitividade das empresas americanas, apesar de, depois das eleições, ter aliviado suas palavras. Foi também significativa sua eleição para o posto de diretor da Agência para a Proteção do Meio Ambiente, onde colocou Scott Pruitt, um promotor de Oklahoma (estado baseado em petróleo e carvão) que bloqueou várias regulações de Obama.

Aos executivos de grupos automobilísticos com os que se reuniu pela manhã (General Motors, Ford Motor e Fiat Chrysler), Trump lhes prometeu precisamente incentivos fiscais e uma liquidação da carga regulatória, desde que potenciem a produção nos Estados Unidos, sobretudo, dos veículos destinados a este mercado.

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